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                                                                                 Área de soltura

Há projeções de que aproximadamente 75% da população global viverá em áreas urbanas e periurbanas até 2050. Essa realidade iminente compromete não apenas a qualidade das habitações e dos espaços públicos, mas também tende a reduzir a diversidade em áreas de convivência, uma vez que o desenvolvimento urbano regido pelo capitalismo normaliza a concentração de poder e perpetua a existência de classes subservientes, afastadas dos circuitos culturais. O que esquecemos, no entanto, é que, ao combater a pluralidade com especulações financeiras que redesenham as cidades, o surgimento inevitável de pragas resistentes fortalece uma lógica monocultural de caráter devastador.

É nesse horizonte que as áreas de solturas adquirem a dimensão conferida pela obra de Renata Cruz, em referência à iniciativa criada pelo IBAMA para designar territórios de reintegração de animais resgatados de um mercado de crueldade que interrompe a liberdade da vida selvagem. Concebido desde 2012, o conjunto de obras propõe estruturas visuais acompanhadas de textos extraídos de pensamentos que se opõem as lógicas dominantes de exploração da vida. Por meio dessas estruturas, a artista convida a leituras e contatos com espécies da fauna e da flora, em locais capazes de contribuir para a regeneração dos modos de estar e de perceber o mundo.

Ao circular pela Area de Soltura, o público poderá experimentar a sensação de estar em uma grande gaiola, no limite entre captura e resgate da autonomia. Sua reabilitação depende de livros e do contato com a biodiversidade. Para a artista, ler equivale a aprender a voar, quando o assunto consiste em recuperar a liberdade extraviada. Com isso, ao propor mergulhos em bibliotecas compostas pelas obras de autoras como bell hooks, Silvia Cusicanqui, Cristina Peri Rossi, Djamila Ribeiro, Suely Rolnik, Veronica Gago, Hilda Hilst, Eliane Brum, Clarice Lispector, Angélica Freitas, Silvia Federici, Donna Haraway, Audre Lorde, Jota Mombaça, Lélia Gonzalez e Chimamanda Ngozi Adichie, a artista anuncia um método para a reabilitação dessa liberdade.

Importante não deixar de avistar as aves raras que compõem o encontro de vozes e voos na Área de Soltura. Elas auxiliam a reconsiderar um princípio reiterado: "as florestas são criadas e transformadas por processos de contaminação". Em outra parte da obra, lemos: somos "fiapos de palha" em um oceano enfurecido.

Portanto, quando 75% da população estiver concentrada em centros urbanos, teremos revertido o cenário atual, com 75% das abelhas mortas pelo uso de pesticidas? Vandana Shiva relembra a advertência de Albert Einstein: "quando a última abelha desaparecer, os seres humanos desaparecerão". O que faremos com a falta dos 75% de água do planeta consumida e poluída pela agricultura industrial na utilização intensiva de produtos químicos? O que faremos com a degradação de 75% da terra e do solo? "Os nitratos presentes na água das fazendas agrícolas industriais estão criando "zonas mortas" nos nossos oceanos", relembra V. Shiva. O que faremos, por fim, com a fome no planeta, que aumenta, a despeito de a monocultura seguir tentando nos fazer acreditar que sua presença no mundo garante alimento. Ainda há tempo para sustentar a ideia de que "eu sou porque você é".

Josué Mattos

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